Fantástico revela esquema milionário de investigador na Paraíba que recebeu R$ 4 milhões com revenda de drogas apreendidas: 'A polícia paga merreca'
Policiais Everton Aires, Eduardo Jorge e Braz Morroni, que foram presos na Operação Perfidus — Foto: Reprodução/TV Globo

Uma investigação que expôs a atuação de policiais civis envolvidos com o crime organizado ganhou repercussão nacional neste domingo (7), após reportagem exibida pelo Fantástico revelar detalhes de um suposto esquema criminoso que operava dentro da própria estrutura da segurança pública da Paraíba.

Segundo a investigação conduzida pelo Ministério Público e pela Polícia Civil, agentes que tinham a missão de combater o tráfico de drogas são suspeitos de negociar entorpecentes com facções criminosas, desviar cargas apreendidas em operações policiais e até repassar informações sigilosas para ajudar criminosos a escapar de ações das forças de segurança.

Áudios e vídeos obtidos com exclusividade pelo programa mostram conversas nas quais os investigados tratam o tráfico de drogas como uma atividade comercial comum. Um dos principais alvos da operação é o investigador Everton Aires, conhecido como “Bomba”, apontado pelas autoridades como líder do esquema.

Em uma das gravações, o policial afirma que a atividade criminosa era encarada como um negócio lucrativo.

“Isso é negócio, não é pessoal”, diz o investigador em um dos áudios divulgados pela reportagem.

As investigações apontam que, nos últimos cinco anos, mais de R$ 4 milhões passaram pelas contas bancárias de Bomba, valor considerado incompatível com sua remuneração como servidor público, estimada em cerca de R$ 8,5 mil mensais. De acordo com os investigadores, os recursos teriam origem na revenda de cocaína, crack e skunk apreendidos durante operações policiais.

Outro trecho das gravações mostra o policial admitindo que os ganhos obtidos com atividades paralelas superavam amplamente sua remuneração no serviço público.

A revelação contrasta com declarações feitas pelo próprio investigador em entrevistas e participações públicas, nas quais defendia a atuação policial dentro da legalidade e o combate à criminalidade.

De acordo com o Ministério Público, entretanto, as provas reunidas indicam que o agente mantinha relações comerciais com traficantes e exercia papel de liderança em uma organização criminosa formada por policiais e criminosos.

A investigação também identificou supostas negociações com integrantes de facções criminosas, incluindo contatos relacionados ao fornecimento de drogas para o Comando Vermelho.

Proteção a foragidos e ligação com o Novo Cangaço

Além de Everton Aires, também foram alvos da operação o investigador Eduardo Jorge, conhecido como “Mão Branca”, e o delegado Braz Morroni.

As apurações tiveram início em maio de 2025, após denúncias de traficantes que acusaram policiais civis de se apropriarem de cargas de drogas apreendidas. A partir daí, os investigadores concluíram que parte dos entorpecentes retirados de circulação não chegava aos procedimentos legais e acabava sendo revendida para outros grupos criminosos.

Segundo o relatório da investigação, os policiais mantinham contato frequente com criminosos e avisavam foragidos sobre operações policiais, garantindo proteção e dificultando prisões.

Entre os beneficiados estaria José Alexandrino Júnior Lira, conhecido como Júnior Lira, investigado por participação em ataques atribuídos ao chamado Novo Cangaço contra bancos e carros-fortes no Nordeste.

Gravações obtidas durante as investigações mostram conversas nas quais Júnior Lira relata ter recebido apoio de policiais para comercialização de drogas e expansão das atividades criminosas para outros estados da região.

Para o procurador-geral da Paraíba, a participação de agentes públicos em organizações criminosas representa um dos aspectos mais graves do caso, justamente pelo poder e pela influência que esses servidores possuem dentro das instituições.

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Prisões e defesa dos investigados

A operação “Perfidus” realizada na última terça-feira (2), em ação conjunta do Grupo de Atuação Especial Contra o Crime Organizado (Gaeco) e da Polícia Civil, resultou na prisão de nove pessoas, incluindo os policiais investigados e Júnior Lira.

As defesas dos envolvidos negam qualquer irregularidade.

O advogado de Everton Aires afirmou que seu cliente não reconhece as acusações e que terá a oportunidade de apresentar sua defesa durante o processo.

Já a defesa de Eduardo Jorge classificou as acusações como incompatíveis com a realidade e levantou a possibilidade de um processo de desgaste da imagem dos investigados.

O advogado do delegado Braz Morroni sustentou que não existem elementos que comprovem participação consciente do policial nos fatos investigados.

A defesa de Júnior Lira também negou as acusações e afirmou que a inocência do investigado será demonstrada ao longo da tramitação judicial.

O caso segue sob investigação e é considerado uma das maiores operações recentes de combate à corrupção policial e ao crime organizado na Paraíba.

O nome da operação deriva da palavra latina “Perfidus”, que significa “traidor” ou “desleal”, em referência à conduta atribuída aos investigados, que, segundo a investigação, teriam utilizado estruturas e prerrogativas do Estado para beneficiar organizações criminosas.

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Confira a reportagem do Fantástico: