O senador Veneziano Vital do Rêgo (MDB-PB) destinou R$ 210 milhões em emendas para obras de ampliação, duplicação e triplicação da BR-230, na Paraíba, executadas em parte por empresas ligadas à família de um funcionário de seu gabinete. A informação foi publicada pelo jornal Folha de S. Paulo nesta terça-feira (8).
A ampliação da rodovia é realizada por dois consórcios. Um deles é responsável pelo trecho em Campina Grande, segunda maior cidade da Paraíba, e o outro atua no segmento de Cabedelo, no litoral do estado. Os dois consórcios subcontrataram a Comtech — posteriormente substituída pela Com Infraestrutura e Mineração — e a Selecta Construções, empresas que têm entre seus sócios e proprietários parentes e ex-sócios de dois assessores com passagem pelo gabinete do senador.
Documentos obtidos pela Folha de S. Paulo mostram que, quando foi contratada, a Comtech tinha como sócio Rodrigo Neves, que trabalhou no gabinete de Veneziano até 2017. Atualmente, a Com Infraestrutura e Mineração pertence a Edenilton Coelho, ex-sócio de Rodrigo na Comtech. Já a Selecta Construções pertence a Romulo Pires Neto, cunhado de Rodrigo.
O irmão de Rodrigo, Marcelo Neves, trabalha no gabinete do senador desde 2019.
Veneziano destinou R$ 210 milhões para a ampliação da BR-230 no Orçamento de 2023. Desse montante, R$ 160 milhões foram indicados por ele como emendas de relator e outros R$ 50 milhões vieram da Comissão de Infraestrutura do Senado.
A obra teve início em 2017, mas foi suspensa no ano seguinte. A execução foi retomada em 2023, em parte com os recursos destinados pelo senador por meio das emendas.
O OUTRO LADO
Em nota, Veneziano confirmou o envio dos recursos e afirmou que sua atuação se restringiu à destinação das emendas.
“O senador não participa de licitações, não escolhe empresas, não indica subcontratadas, não autoriza pagamentos e não interfere na fiscalização de contratos. Essas atribuições pertencem exclusivamente às estruturas administrativas responsáveis pela execução da obra”, afirmou.
Segundo o senador, relacionar a destinação de recursos à contratação de empresas pelos consórcios significa confundir a atuação parlamentar com decisões administrativas e empresariais.
“Tentar estabelecer relação entre a destinação de recursos para a BR-230 e empresas eventualmente subcontratadas pelo consórcio responsável pela obra significa confundir deliberadamente atuação parlamentar com atos de gestão administrativa e empresarial dos quais o senador não participa”, disse.
Sobre Rodrigo Neves, Veneziano afirmou que vínculos profissionais anteriores com gabinetes parlamentares não representam participação ou influência do senador nas atividades empresariais posteriores do ex-funcionário.
A Selecta foi contratada em 2023, no mesmo ano da retomada das obras, para fornecer máquinas utilizadas na execução do projeto. A empresa pertence a Romulo Pires Neto, cunhado de Rodrigo Neves. Procurada pela reportagem por telefone e email, a Selecta não respondeu aos questionamentos.
A Comtech passou a atuar na obra em 2024. Em 3 de março daquele ano, a empresa apresentou uma proposta comercial a um dos consórcios responsáveis pela ampliação da rodovia.
Na ocasião, porém, a empresa tinha outro nome e atuava em um setor diferente. Registrada como Aqualimp Carcinicultura, tinha como objeto social a criação de camarões e peixes. Em 8 de maio, dois meses depois da proposta, mudou o nome para Comtech e alterou seu objeto social para incluir atividades relacionadas à construção e sinalização de rodovias.
Rodrigo Neves tornou-se sócio-administrador da Comtech em 20 de setembro de 2024 e permaneceu no quadro societário até junho de 2025. Ele dividia a empresa com Edenilton Coelho, que atualmente é seu único sócio.
O contrato entre a Comtech e o consórcio foi assinado por Rodrigo em 2 de setembro de 2024, 18 dias antes de sua entrada formal na sociedade.
A Comtech também não respondeu aos contatos da reportagem por telefone e email.
A contratação da Selecta e da Comtech aparece em processos trabalhistas movidos contra um dos consórcios responsáveis pela obra. Nos processos, o consórcio afirma que eventuais problemas nos canteiros eram de responsabilidade da Comtech, contratada para executar os trabalhos no local, e posteriormente de sua sucessora, a Com Infraestrutura e Mineração.
Em novembro de 2024, os funcionários da Comtech que atuavam na obra foram transferidos para a Com Infraestrutura e Mineração, empresa criada em 8 de outubro daquele ano e que funcionava no mesmo endereço e utilizava o mesmo número de telefone da Comtech.
A nova empresa pertence a Edenilton Coelho, ex-sócio de Rodrigo na Comtech, e a Gabriel Mattos.
A LCM Construção e Comércio, integrante do consórcio responsável pelas obras em Campina Grande, afirmou que a contratação da Comtech foi precedida de análise da regularidade documental e da capacidade operacional da empresa.
A companhia também negou qualquer interferência de agentes públicos nas contratações realizadas pelo consórcio.
Segundo a LCM, o contrato tem valor de aproximadamente R$ 550 milhões e é regularmente fiscalizado e auditado pelos órgãos competentes.
A fiscalização da execução do contrato cabe ao Dnit (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes) na Paraíba. Em nota, o órgão afirmou que os serviços relacionados às obras da BR-230 seguem em execução, sem interrupções.
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INDICAÇÃO NO DNIT
O superintendente regional do Dnit na Paraíba é do ex-deputado Arnaldo Monteiro, indicado por Veneziano em abril de 2023. Ele deixou o cargo no ano seguinte para disputar a Prefeitura de Esperança pelo MDB. Foi substituído pelo irmão, Antonio Monteiro.
Arnaldo Monteiro perdeu a eleição municipal e retornou ao comando do Dnit em 2025.
De acordo com o órgão, as obras da BR-230 receberam R$ 397 milhões em pagamentos desde 2023. Desse total, aproximadamente R$ 38,9 milhões tiveram origem em emendas parlamentares.


