Crônica sobre o paraíso que virou pesadelo, pedindo por empréstimo o título de uma reportagem do jornal El País, publicada em abril de 2023
Por Maria Luiza Alencar Mayer Feitosa
Confesso que estou intrigada. Onde eu estava que perdi a transformação do Paraguai, de um país associado ao contrabando, à falsificação de mercadorias e à economia informal, para a celebrada condição de “Suíça latino-americana”? Que loucura! Será que aconteceu enquanto eu dormia ou terá sido mais uma dessas revoluções econômicas que acontecem apenas nas redes sociais, sem que a realidade seja consultada?
O fato é que a extrema-direita paraguaia, corrupta como suas congêneres mundo afora, resolveu vender uma novidade que de novo nada tinha. A receita é antiga, conhecida, testada e sempre resulta equivocada: atrair capitais, oferecer vantagens aos investidores, reduzir impostos, flexibilizar leis protetivas e promover austeridade (contingenciamento e cortes) nos direitos sociais, como educação, saúde, moradia etc.
Basta deixar o dinheiro circular, diminuir os impostos e esperar a riqueza aparecer! Essa fórmula sempre mostra, todas as vezes em que é aplicada, que, quando o capital recebe tapete vermelho, o povo trabalhador é expulso da cerimônia.
Parece que, no Paraguai, a fórmula ganhou embalagem de modernidade, linguagem de empreendedorismo e propaganda de prosperidade. Nesse cenário ilusório, considerado o contexto pobre da América Latina, e num modelo que depois inspiraria Milei, a TESOURA atinge as políticas sociais, enquanto o Estado se minimiza como protetor dos direitos e se maximiza em vantagens a “investidores”, uma abstração que hoje domina o mundo.
Nesse panorama irreal, a lorota atravessou a fronteira e encontrou terreno fértil no sul do Brasil. Os bolsonaristas, encantados com a descoberta do novo paraíso liberal, foram em rebanho: levaram dinheiro, planos de negócios, expectativas de uma vida longe dos impostos brasileiros – foram de mala e cuia! O Paraguai virou uma espécie de Eldorado tropical dos inconformados com o governo Lula cá. Foram protestar contra Lula lá, na nova Suíça, bem ali, do outro lado da Ponte da Amizade!
E o Véio da Havan? Ah, esse merece um capítulo à parte! Fez suas lives, ajudou a alimentar o imaginário da prosperidade paraguaia e entusiasmou muita gente com a possibilidade de uma nova fronteira de negócios. Mas, ao que se sabe, ele próprio não perdeu dinheiro no Banco nem abriu uma única loja por lá.
Minha gente! O bolsonarismo afeta o cérebro das pessoas. Na matéria mencionada no título, de 2023, o jornalista Santi Carneri já alertava para a distância entre os indicadores macroeconômicos celebrados internacionalmente e a vida cotidiana da população paraguaia. Enquanto os números apontavam crescimento econômico, inflação relativamente controlada e baixa carga tributária, a realidade revelava pobreza, precariedade do trabalho, desigualdade e concentração de riqueza.
Tudo comprovado por números impressionantes: apenas 2,5% da população detinha 85% da superfície cultivável do país, ou seja, a concentração fundiária, herdada em grande medida da ditadura de Alfredo Stroessner, permanecia como profunda e indelével marca da estrutura econômica paraguaia.

Imagem gerada por IA
Não é pouca coisa. Estamos falando de um país cuja história econômica foi pautada pela concentração das terras, pela expulsão de comunidades camponesas e indígenas e pela expansão de grandes negócios agropecuários, especialmente da soja e da pecuária. Uma população sem poupança, sem direitos trabalhistas, sem proteção contra o desemprego e sem cobertura previdenciária. Já naquela época, mais de um milhão e meio de paraguaios viviam fora do país, muitos em busca de trabalho, atendimento médico e melhores condições de vida, no Brasil!!!
Em maio de 2023, outra reportagem do El País, intitulada La desigualdad o el mal endémico de Paraguay, aprofundava a discussão. Em maio de 2024, o jornal argentino Página|12 publicou uma análise provocadora intitulada Paraguay: ¿un reflejo de la Argentina que se viene?, mostrando o modelo paraguaio como referência para as propostas econômicas de Javier Milei.
Para quem estuda desenvolvimento econômico pareado a desenvolvimento humano, principalmente para quem já leu o paraibano Celso Furtado, o problema não é o Paraguai crescer. A questão é confundir crescimento econômico com desenvolvimento, como se o aumento do PIB, a chegada de empresas e a multiplicação de fortunas fossem suficientes para melhorar a vida da sociedade.

Imagem gerada por IA
Na semana passada, o Banco Central paraguaio interveio no Ueno Bank, o maior do país, e congelou os depósitos de quase três milhões de correntistas. O banco administrava cerca de US$ 850 milhões em recursos públicos. Aí estavam depósitos do Instituto de Previdência Social paraguaio, responsável pelo sistema de aposentadorias, além de dinheiro de outras instituições públicas, inclusive entidades ligadas à energia elétrica e à hidrelétrica de Itaipu. Cerca de 9% dos recursos do IPS estavam depositados no banco, segundo as informações divulgadas sobre o caso.
O detalhe é que o presidente da República, Santiago Peña, havia sido sócio do grupo empresarial controlador do banco até 2025, e Carlos Carvallo, que presidia o Banco Central, também havia dirigido anteriormente a mesma instituição financeira. Na quinta-feira, Peña renunciou para evitar o impeachment.
Sem dúvida, era o Banco Master de lá. Esse desastre podia ter chegado ao Brasil, em caso de reeleição de Jair Bolsonaro, em 2022, ou da eleição do seu filho, em 2026.

Santiago Peña diante do banco Ueno – Imagem gerada por IA
A extrema-direita se espalha hoje por 14 países da América Latina. Só faltava Brasil, México e Uruguai. Caminhávamos para um naufrágio coletivo, como um abraço de afogados! Bom para Trump e sua ideia de Escudo das Américas! Imagine o que seria reduzir países como Brasil e México para caber dentro do modelo do Paraguai, em termos de política econômica? Nesse circo dos horrores, quando o barco afunda, os vendedores de milagres econômicos fogem. Literalmente.
Saltamos uma fogueira! Definitivamente, Deus é brasileiro porque a reeleição de Lula nos salvou!!!
Coitados dos que acreditaram na alucinação e torraram suas economias. Na minha terra, se diz que doido mesmo é aquele que rasga heiro. Pois eles rasgaram – foram atrás da Suíça e encontraram… o Paraguai!
—
Leia também:
Sobre as eleições e a história do rio que nasce no sul da Paraíba e que o Sul do Brasil não conhece


