Por Maria Luiza Alencar Feitosa
Um colega da UFPB me mandou um link do YouTube, com uma espécie de documentário, deveras emocionante, sobre uma das tantas histórias improváveis que envolvem o Sertão nordestino. Trata-se do Rio Paraíba, que, nem eu sabia, nasce em Monteiro, no Cariri, mais precisamente na Serra do Jabitacá. Monteiro é a cidade-polo da região onde fica a nossa fazenda Macambira, em São Sebastião do Umbuzeiro.
Ou seja, aquele rio que chega imenso e caudaloso ao litoral nasce de um fio d’água na aridez causticante do Cariri paraibano.
Fiz imediatas conexões com os episódios recentes de achincalhe ao Nordeste, depois do resultado eleitoral. Pessoas arrogantes, embriagadas de suposta superioridade intelectual ou de pretensões de supremacia racial, certamente ignorantes quanto ao Nordeste, ainda que algumas já tenham nos visitado como destino turístico, sentiram-se no direito de afrontar os nordestinos.
Partem, em geral, de pressupostos equivocados: confundem desenvolvimento econômico com superioridade intelectual; desigualdade regional com incapacidade humana; diferenças culturais com inferioridade.
Desconhecem, inclusive, que o Nordeste é um dos maiores berços da cultura brasileira, terra de romancistas e poetas clássicos, mas também de cordelistas e repentistas; de músicos que atravessam gerações (o que dizer só da Bahia?); e de artistas que reinventam o teatro, o cinema e a dança. O Nordeste preserva e recria a cultura brasileira para o mundo. Mas… preconceito desconhece arte e cultura.
Tampouco reconhecem o quanto o Nordeste tem avançado, ampliado oportunidades e produzido resultados expressivos na educação, na ciência e na promoção de um desenvolvimento inclusivo e sustentável para o país. Julgam-nos por uma régua que é deles próprios e que não mede nossa grandeza, incapazes de perceber que, ao tentar nos diminuir, apenas revelam a estreiteza do olhar com que enxergam o(a) outro(a).
Mas outras eleições virão. Esta já foi resolvida. Caso ainda queiram conhecer melhor o(a) nordestino(a), um bom começo poderia ser assistir a esse vídeo (sobre os segredos que guarda o sul da Paraíba, como essa história do rio) ou ao filme Bacurau, do premiado cineasta pernambucano Kleber Mendonça Filho. Atenção: assistam algumas vezes
E, se quiserem ir além das imagens, leiam Vidas Secas, de Graciliano Ramos; O Quinze, de Rachel de Queiroz; A Bagaceira, de José Américo de Almeida; ou Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto. A literatura também pode ensinar a olhar para o Nordeste sem os filtros do preconceito.
No caso dos políticos das regiões ricas do Brasil, dobrem a língua e a aposta: antes de pretender receber a adesão do Nordeste, procurem nos conhecer de verdade. Venham ao Sertão. Sintam o ar quente da caatinga. Conheçam a sabedoria do nosso povo. Com humildade e respeito, percorram nossos caminhos, escutem nossas histórias e valorizem nossas lutas. Sem a petulância de quem imagina sempre ter algo a ensinar a um povo chucro que não consegue aprender. Ah, vocês não imaginam como sabemos reconhecer a falsidade e a desfaçatez de longe!
De igual para igual, somente assim, vocês poderão enxergar um Nordeste que é alma, luta, coragem, bravura, lealdade e, sobretudo, RESISTÊNCIA.
Este é o Nordeste profundo, ancestral, enraizado. Uma região cujo posicionamento (geo)político não se explica apenas pela posição geográfica, pelas condições climáticas ou pelo abandono governamental. Há história, identidade e uma consciência coletiva que não cabem nas presunções de quem nos olha de fora. É a mesma experiência humana que atravessa tantas páginas da literatura nordestina: a partida, a saudade, a sobrevivência, a solidariedade e a esperança teimosa de quem não aceita que a seca esgote o destino de um povo.
Até agora, nenhum governante democraticamente eleito, exceto Lula, conheceu tão profundamente a alma nordestina: a do retirante, que parte sem jamais deixar de pertencer, e a daquele que fica, que resiste aqui, sem jamais deixar de sonhar.
“Vou ser o carioca mais nordestino que já existiu”, disse agora um candidato que fugiu do país. Na mesma ocasião, anunciou gorjetas em dólar e euro para os nordestinos. Ah, meu caro, talvez você não compreenda o peso histórico dessas palavras. Gorjeta não é reconhecimento, é esmola; não é direito, é favor. E nordestinidade não se proclama. Não se usa por conveniência. Tampouco se adquire por bravata. Vestir um gibão e um chapéu de couro e pensar que pode desbravar a caatinga é arrogância e insensatez.
Esse candidato andou acompanhado de certos tipos que nasceram no Nordeste, mas não se identificam com ele. De fato, existe o nordestino autorrenegado, desenraizado, que, por razões socioeconômicas, por conveniência política ou por manipulação ideológica, rompe os vínculos com a sua gente e se afasta dessa identidade coletiva: nasce no Nordeste, mas não se reconhece na Nação Nordestina.
Mas a maioria do povo daqui porta a bandeira da amada Nação Nordestina. Um sentimento de viés antropológico e sociológico, que não se sustenta no lugar de nascimento, mas no território simbólico do pertencimento, da memória compartilhada e da identificação ancestral. Somos simples, cordiais e afetuosos. Não impomos fronteiras, mas reconhecemos raízes. Somos de paz, mas não levamos desaforo para casa.
Esta é a tônica. Como o Rio Paraíba, que chega ao litoral sem perder pelo caminho a lembrança do fio d’água que foi, também nós ganhamos força quando encontramos outros afluentes, alargamos o curso, reafirmamos a memória e seguimos adiante. Quem quiser nos navegar ou atravessar, que aprenda primeiro a respeitar a correnteza.
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Imagem: Trecho do Rio Paraíba no município de Barra de Santana, no Agreste Paraibano – Foto: @alexandrexxhb



