Aos poucos, entre aparelhos, protocolos e o cuidado constante de uma equipe multiprofissional, o indígena potiguara Manoel Cassiano Soares, de 72 anos, foi reencontrando a própria vida e, também, o caminho de volta para casa. Natural da Aldeia Camurupim, no município de Marcação, ele chegou ao Hospital do Servidor General Edson Ramalho (HSGER) em estado grave, com um quadro de obstrução intestinal.
Foram dias de incerteza, cirurgias sucessivas e longos períodos de internação. Mas, para além dos procedimentos médicos, foi a comunicação clara, contínua e humanizada entre profissionais, paciente e família que ajudou a sustentar sua recuperação e a manter viva a conexão com sua aldeia, mesmo à distância.
A sobrinha, técnica de enfermagem no HSGER, Dnize Santana, acompanhou de perto cada etapa. “Teve um momento em que a gente achou que ele não ia voltar. Foram muitos dias sedado, entubado. Mas a equipe sempre explicava tudo, cada procedimento, cada mudança. Isso acalmava a gente”, relatou. Segundo ela, Manoel — ex-cacique e ancião respeitado entre os Potiguaras — enfrentou um processo delicado, com reabordagens cirúrgicas e complicações. “Foi um dia de cada vez. E a forma como os profissionais conversavam com ele e com a gente fez toda diferença. Era como manter um vínculo com a aldeia, com a vida dele lá fora”, completou.
Esse elo também foi essencial para a esposa, Maria Lourdes Soares, que não se afastou do marido durante a internação. “Foram dias dolorosos, de muita ansiedade, mas também de muito carinho. Eu agradeço de todo o coração. Nunca me senti sozinha aqui”, disse. Em meio à rotina hospitalar, pequenos gestos reforçaram esse cuidado: no dia 10 de março, Manoel completou 72 anos dentro da unidade, e a equipe organizou uma celebração simbólica. “Ele viu todo mundo ali, cantando parabéns, e isso emocionou muito. A comunicação, o acolhimento… tudo isso fortalece”, lembrou Dnize.
De acordo com a coordenadora da Comissão de Pele do hospital, Jussara Fernandes, o caso exigiu atenção constante e integração entre diferentes áreas. “Foi uma cirurgia complexa, com um pós-operatório longo e instável. Houve momentos críticos, mas a equipe atuou de forma rápida e integrada. Hoje ele está sem traqueostomia, sem sonda e sem lesões. É um paciente que renasceu”, destacou. Segundo ela, a comunicação com a família foi permanente. “A cada intercorrência, a família era informada. Isso traz segurança e confiança”.
Já recuperado, Manoel resume a experiência com gratidão. “Estou me sentindo muito bem. Foi muito bom o hospital, a companhia de vocês, a orientação. Estou feliz, muito feliz. Não tenho o que reclamar”, afirmou, ansioso pelo retorno à aldeia, onde pretende retomar a rotina ao lado da família.
Segurança do paciente – A história de Manoel evidencia, na prática, uma das seis metas internacionais de segurança do paciente: a comunicação efetiva. Mais do que repassar informações, trata-se de garantir que o paciente e seus familiares compreendam cada etapa do cuidado, participem das decisões e se sintam acolhidos.
Segundo a enfermeira Ana Nélida, do Núcleo de Segurança do Paciente do HSGER, esse é um dos pilares da assistência segura. “Uma comunicação clara evita erros, reduz riscos e fortalece o vínculo entre equipe, paciente e família. É uma ferramenta de cuidado tão importante quanto qualquer procedimento”, enfatizou.
Além da comunicação efetiva, outras metas orientam a assistência e são aplicadas diariamente na unidade: a identificação correta do paciente, com conferência rigorosa de dados antes de qualquer procedimento, a segurança na administração de medicamentos, a realização de cirurgias seguras, a prevenção de infecções por meio da higienização das mãos e a prevenção de quedas e lesões por pressão.
No caso de Manoel, esses protocolos foram determinantes. Mesmo diante da gravidade do quadro, a atuação integrada das equipes garantiu respostas rápidas às intercorrências, além do cuidado com complicações, como lesões por pressão, tratadas com sucesso. “A segurança do paciente é construída no dia a dia, com protocolos, mas também com atenção e responsabilidade de toda a equipe”, reforça Ana Nélida.
Cultura de segurança fortalecida no HSGER – Como parte das ações do Mês da Segurança do Paciente, celebrado neste mês de abril, o Núcleo de Segurança do Paciente do HSGER promoveu, na manhã da última sexta-feira (17), uma palestra voltada aos líderes de todas as áreas do hospital, realizada no refeitório da unidade.
O encontro teve como foco a comunicação efetiva e a importância da padronização de protocolos, reforçando a construção de uma cultura de segurança dentro da instituição. A proposta é que o conhecimento seja multiplicado entre as equipes, fortalecendo práticas que reduzam riscos e garantam uma assistência cada vez mais segura e humanizada.
A experiência vivida por Manoel e sua família sintetiza esse compromisso. Em cada orientação, em cada informação compartilhada, a equipe não apenas tratou um paciente, mas construiu confiança. E, ao final, “ajudou a devolver um ancião à sua terra, à sua história e à sua vida”, como resumiu o próprio Manoel.



