Do domínio à renovação: a virada que começa a mudar a lógica política no Vale do Sabugi

O que vem acontecendo no Vale do Sabugi nos últimos anos é mais do que uma simples alternância de poder — é uma mudança profunda de rota, construída nas urnas, na gestão e no desgaste natural de grupos que se acostumaram a comandar sem perceber os sinais de esgotamento.

Durante décadas, o Vale foi sinônimo de influência do Grupo Bento de Morais, liderado pelo ex-senador Efraim Morais. Santa Luzia, maior colégio eleitoral da região, funcionava como o coração político desse projeto. Mas 2016 marcou um divisor de águas: a vitória de Zezé, então no MDB, encerrou uma hegemonia de quase 40 anos. E não foi um episódio isolado — foi o primeiro capítulo de uma guinada que o tempo apenas consolidou.

Zezé se reelegeu em 2020 e, em 2024, alcançou algo ainda mais simbólico: elegeu o sucessor, Henry Lira, filiado ao Republicanos, que foi seu secretário e que nunca havia se candidatado a cargo eletivo. Quando um grupo político atravessa todo um ciclo eleitoral e ainda consegue renovar sua própria liderança, significa que o eleitorado não apenas rejeitou o passado — ele aderiu a um novo projeto.

Nas eleições de 2022, o recado das urnas ficou ainda mais evidente. Em Santa Luzia, Efraim Filho — apresentado há anos como “filho da terra” — perdeu espaço para Pollyanna Dutra, candidata governista apoiada por Zezé. Os números falam mais alto que qualquer discurso: Pollyanna liderou com 45,77% – 3.578 votos, enquanto Efraim ficou com 32,65% – 2.552 votos. Não foi apenas uma derrota aritmética; foi simbólica — um aviso de que o sobrenome, sozinho, já não basta.

No campo proporcional, o desempenho reforçou o movimento. Alexandre de Zezé (Republicanos) foi o mais votado para deputado estadual, com mais de 65% – 5.429 votos – no município, enquanto George Morais (União Brasil), irmão de Efraim Filho, obteve 1.014 votos (11,68%). Para a Câmara Federal, Hugo Motta (Republicanos) — candidato apoiado por Zezé — liderou com folga, sinal de que o eleitorado está alinhando o voto local com quem consegue entregar resultado e articulação.

A queda do grupo Morais não ficou restrita a Santa Luzia. Em 2024 na cidade de Várzea, a eleição de Paulinho Nóbrega (Republicanos), também apoiado por Zezé, encerrou 32 anos de comando político na cidade. São ciclos que se fecham — não por imposição, mas por decisão popular.

O que explica tudo isso? Parte é o desgaste natural de quem permaneceu tempo demais no poder. Outra parte é estratégia: Zezé construiu alianças, entregou obras, dialogou com as bases e soube transformar capital eleitoral em continuidade política. O eleitor do Vale do Sabugi percebeu movimento, presença e resultado.

Contudo, o Grupo Bento de Morais segue relevante no Vale do Sabugi, sustentado pelo apoio dos prefeitos de São José do Sabugi e São Mamede, Emanuel Domiciano e Chaguinha Lopes — ambos do União Brasil e com laços familiares com o grupo. Já o prefeito de Junco do Seridó, Dr. Paulo Fragoso, embora tenha contado com apoio deles em 2024, adota postura mais independente e deve apoiar Lucas Ribeiro (PP) para o Governo do Estado.

O perfil do eleitorado da região mudou. Mudou porque aprendeu a cobrar, a comparar, a votar com memória. E, quando o eleitorado descobre o poder que tem, raramente volta atrás.

A era do “nome forte” já passou. A era agora é a da credibilidade — e esta só se conquista no dia a dia, com trabalho, coerência e respeito ao voto.