Efraim Filho aparece em registro fotográfico ao lado de senador investigado por fraudes no INSS, aponta revista
Fotografias obtidas pela Polícia Federal mostram encontro realizado em uma propriedade de luxo no Distrito Federal durante o feriado de Tiradentes de 2023 - Foto: Reprodução / Revista Piauí

A investigação conduzida pela Polícia Federal (PF) sobre um suposto esquema de fraudes e desvios de recursos do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) identificou registros do senador e candidato ao Governo da Paraíba, Efraim Filho (PL), ao lado do senador Weverton Rocha (PDT-MA), um dos alvos das apurações.

As informações foram divulgadas pela revista Piauí, que teve acesso a imagens extraídas do telefone celular de Weverton. Os registros mostram a presença de parlamentares em um encontro realizado no chamado “Rancho Tomaz”, uma propriedade localizada em Planaltina, no Distrito Federal, pertencente ao advogado Willer Tomaz, investigado por suspeitas de participação em um esquema de lavagem de dinheiro.

Segundo a publicação, a reunião ocorreu durante o feriado de Tiradentes, em abril de 2023, e teria sido organizada por meio de um grupo de mensagens denominado “Grupo Seleto”. As fotografias mostram os participantes reunidos na área de lazer da propriedade.

Ainda de acordo com a reportagem, a presença de familiares dos parlamentares também foi identificada. Entre os registros analisados estão imagens publicadas nas redes sociais por Carol Morais, esposa de Efraim Filho e segunda suplente da candidatura de Marcelo Queiroga (PL) ao Senado Federal.

Em uma das fotografias, Carol aparece na academia da propriedade ao lado de outras mulheres ligadas aos políticos presentes no encontro.

Até o momento, não há indicação de que Efraim Filho seja alvo da investigação. A citação do nome do senador ocorre em razão de sua participação no encontro registrado nas imagens analisadas pela Polícia Federal.

Foto: Reprodução / Revista Piauí

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Leia a reportagem da revista Piauí na íntegra:

Na piscina com o “Grupo Seleto”

Os policiais federais que foram à casa do advogado Willer Tomaz, na última terça-feira (4), ficaram admirados com o que viram. É um casarão bem equipado, localizado no Lago Sul, o bairro mais rico de Brasília. Ao passar pela porta, depararam-se logo na entrada com uma comprida adega de vinhos, que vai do chão ao teto. No closet de um dos quartos, encontraram um mostruário climatizado de relógios, cada um submetido a uma temperatura específica. Perto dali, no mesmo bairro, fica o escritório Willer Tomaz Advogados Associados – que, como o dono, está enrolado no escândalo do INSS. Os investigadores suspeitam que Willer lavava dinheiro para o senador Weverton Rocha (PDT-MA), e que parte dos valores provinham de desvios de aposentadorias e pensões.

Mas os policiais não se admiraram só com a riqueza de Willer. Desde o final do ano passado, estão em posse do celular de Weverton – e, analisando o material, encontraram uma foto que dá pistas da influência do advogado. A imagem, obtida pela piauí, mostra Willer mergulhado numa piscina no Rancho Tomaz, uma propriedade sua na cidade de Planaltina, a 80 km de Brasília. No seu entorno, dentro e fora d’água, estão deputados e senadores de diferentes partidos – quase todos da direita e do Centrão –, apinhados, animados, com cervejas e drinques na mão. É possível identificar ao menos seis deles: Arthur Lira (PP), ex-presidente da Câmara dos Deputados, Alexandre Ramagem (PL), que dirigiu a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) durante o governo Bolsonaro, Juscelino Filho (PSDB), Elmar Nascimento (União), Paulo Azi (União) e, claro, Weverton Rocha.

A fotografia está registrada no rolo de câmera do senador com a data de 23 de abril de 2023 – um domingo, depois do feriado de Tiradentes. A viagem, de acordo com as informações da polícia, foi combinada em um grupo de WhatsApp intitulado “👩‍❤️‍👨 Grupo Seleto 👩‍❤️‍👨”, do qual participavam boa parte dos parlamentares que aparecem na foto. A piauí obteve um print da conversa, em que os participantes parecem formar uma lista de presença para o “FERIADO TIRADENTES”. As mulheres de alguns políticos também faziam parte do grupo – caso de Lia Rezende, esposa de Juscelino, e Angela Lira, casada com Arthur Lira. Na data em que ocorreu a festa, Lira ainda era presidente da Câmara, cargo que deixou em 2025. Alexandre Ramagem, por sua vez, ainda era deputado federal. Ele acabou sendo cassado em dezembro de 2025, depois de ser condenado a 16 anos de prisão por envolvimento na tentativa de golpe de Estado contra Lula. Hoje, está foragido.

Embora as mulheres não apareçam na foto da piscina, tudo indica que também estavam no rancho. Iris Azi, mulher do deputado Paulo Azi, postou no Instagram, no dia 22 de abril de 2023, um vídeo em que aparece se exercitando numa academia envidraçada, cercada por árvores. Naquele mesmo sábado, Gerlane Baccarin – mulher do senador Hiran Gonçalves (PP-RR), que também era parte do grupo – publicou uma foto numa academia idêntica. Com ela, vê-se Carol Morais – mulher do senador Efraim Filho (PL-PB) – e Angela Lira.

O Rancho Tomaz, assim como a casa no Lago Sul, é suntuoso. Além da academia e da piscina aquecida na qual posaram os parlamentares, tem quadras de tênis, campo de minigolfe e um píer com acesso à Lagoa Formosa, um dos principais pontos turísticos de Planaltina. Os objetos e móveis que decoram a casa são estilizados com as iniciais WT, de Willer Tomaz, em que o último traço do W forma a letra T. O advogado tem lanchas, jet skis e mesas para jogar poker.

O inquérito aponta que empresas de Willer transferiram cerca de 11 milhões de reais para Samya Rocha, a mulher de Weverton. Também há indícios, segundo a PF, de que a casa onde o senador mora, no Lago Sul, foi comprada por Willer – que, além disso, bancava suas contas de luz, telefone e cartão. A Polícia Federal, diante desses elementos, suspeita que Weverton e Willer tentavam “ocultar ou dissimular a origem” de dinheiro obtido ilegalmente. A hipótese foi apresentada na petição que a PF enviou ao ministro do STF André Mendonça, e que fundamentou a operação desta semana. A fotografia não foi mencionada, mas está sob análise dos investigadores, que tentam descortinar a teia de interesses por trás do esquema e o que pode ter resultado da intimidade entre o advogado e o seleto grupo de homens públicos.

Durante muitos anos, Willer e sua mulher, Flávia Oliveira Correa Tomaz, levaram uma vida pacata nos arredores de Brasília. Tinham apenas uma loja de informática em Taguatinga, uma das regiões administrativas da capital. Era o suficiente para viver, mas sem luxos. Até que, em agosto de 2010, Willer criou o escritório de advocacia. De cliente em cliente, foi se tornando famoso, sobretudo entre políticos.

Willer – a quem os conhecidos se referem apenas como WT – advogou para figuras importantes, entre elas Lira e os irmãos Batista, do grupo J&F. Chegou a ser preso, em 2017, sob a suspeita de ter subornado um procurador em benefício de Wesley e Joesley, mas logo foi solto e superou a má fase. Prestigiado, trouxe para seu escritório Eugênio Aragão, ex-ministro da Justiça de Dilma Rousseff. Aproximou-se também do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que, em 2021, durante a CPI da Covid, se referiu a ele como “meu amigo”. Na época, Willer havia entrado na mira da comissão devido à suspeita de que pudesse ter atuado na negociação da vacina Covaxin. No fim, acabou sendo excluído da investigação. O nome de Flávio não consta no “Grupo Seleto”, mas o senador já esteve no Rancho Tomaz em outra ocasião. Registrou a visita em seu Instagram.

Em abril de 2023, data da foto na piscina, Willer tentava se cacifar para uma vaga no Conselho Nacional de Justiça (CNJ) por indicação da Câmara. Era cotado como favorito, em parte devido à influência de Flávio, mas acabou desistindo. No mesmo ano, a Folha de S.Paulo noticiou que o Ministério das Comunicações – ocupado, na época, por Juscelino Filho – vinha tomando decisões favoráveis a Willer. Um ex-sócio do advogado era diretor do Departamento de Radiodifusão Privada, no ministério, e havia permitido a expansão da TV Difusora do Maranhão. Na época, Willer presidia o conselho de administração da tevê.

A piauí fez contato com todos os parlamentares identificados na foto da piscina e no grupo de WhatsApp. Cinco responderam. Hiran Gonçalves não confirmou se estava no rancho em abril de 2023, mas disse que “de vez em quando” vai para lá. “O Willer é meu amigo há mais de quinze anos. Já advogou para mim.” Elmar Nascimento admitiu ser próximo de Willer, mas disse que estava em Tiradentes (MG) naquele fim de semana para receber do governador Romeu Zema uma Medalha da Inconfidência Mineira, uma das maiores honrarias do estado. A cerimônia aconteceu em 21 de abril – portanto, dois dias antes da data registrada no rolo da câmera do senador Weverton Rocha. Já Paulo Azi confirmou a presença no rancho. “Não é meu advogado, mas o conheço e fui convidado para essa comemoração.” O senador Ângelo Coronel (Republicanos-BA), que estava no grupo de mensagens, disse não lembrar da viagem, mas afirmou: “Já estive no rancho, sim.” Arthur Lira, Alexandre Ramagem e Juscelino Filho não responderam às perguntas da piauí.

Em nota divulgada à imprensa na terça-feira (4), Willer Tomaz afirmou que só foi alvo da PF porque emprestou sua aeronave para Weverton Rocha, “em caráter estritamente particular”. Disse que não é formalmente investigado pela Polícia Federal – fato contestado por fontes da PF ouvidas pela piauí. Na nota, o advogado diz não ter “qualquer vínculo com o esquema de fraudes em descontos previdenciários”. Weverton Rocha, por sua vez, disse ter recebido a operação “com tranquilidade” e que “todas as movimentações [financeiras] mencionadas [no inquérito] são fruto de atividades profissionais e empresariais”.

Com revista Piauí