O silêncio que grita: até quando os homens irão se calar diante da violência contra a mulher na Paraíba?

Perguntar não ofende. O que ofende é o silêncio. O que agride é a ausência de posicionamentos. O que constrange é ver homens se calarem diante de mais um caso de violência doméstica com repercussão nacional, envolvendo pessoas conhecidas da sociedade paraibana.

Confesso: passei as últimas 24 horas acompanhando perfis e buscando, ainda que ingenuamente, algum posicionamento masculino. Procurei falas de artistas, de blogueiros e influenciadores com grande alcance nas redes sociais, de figuras da política e de pessoas que ocupam espaços de poder e influência. O resultado foi o mesmo em todos os casos: silêncio total. Nenhuma nota. Nenhuma linha. Nenhuma fala. Nenhuma postagem. Nenhum gesto público.

E isso ocorre mesmo após uma fala clara e direta do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Durante um evento realizado em dezembro, Lula afirmou que é dever de nós, homens, combatermos a violência contra a mulher, ressaltando que essa luta não pode ser delegada apenas às vítimas ou às mulheres, mas deve ser assumida por toda a sociedade — especialmente por quem exerce liderança, influência e visibilidade pública.

Diante disso, a pergunta é inevitável: onde estão os lulistas na Paraíba?

E onde estão os bolsonaristas e os setores da direita que se dizem defensores da família? Onde estão?

O caso em questão não é “apenas mais um”. Nunca é. Trata-se de um episódio que extrapolou os limites da Paraíba, ganhou repercussão nacional e escancarou, mais uma vez, uma ferida crônica da sociedade brasileira: a violência contra a mulher — muitas vezes relativizada, abafada ou silenciada quando envolve figuras públicas, fama, influência ou capital político.

É aqui que a pergunta precisa ser feita sem rodeios: não chegou a hora de nós, homens, metermos o dedo na ferida?

Não chegou o momento de encararmos esse problema de frente?

De compreendermos que o enfrentamento à violência doméstica também é responsabilidade nossa?

A manifestação dos homens contra a violência de gênero é crucial porque atinge a raiz do problema: a cultura machista que oprime mulheres e limita o potencial humano. Romper esse ciclo é um esforço indispensável para a construção de uma sociedade mais justa, segura e verdadeiramente civilizada. Como a maioria dos autores da violência de gênero são homens, a educação entre pares — o diálogo direto de homens para homens — torna-se uma das formas mais eficazes de desconstruir comportamentos agressivos, rever padrões de masculinidade tóxica e transformar essa realidade.

O silêncio das lideranças e dos influenciadores não é neutro. Ele comunica. Comunica omissão. Comunica conveniência. Comunica cálculo. Comunica medo de desgaste. E, no fim das contas, comunica indiferença diante de uma violência que mata, traumatiza e silencia mulheres todos os dias.

A opinião de autoridades e de pessoas com influência pública importa — e importa muito. A opinião masculina tem peso sobre a formação da opinião de outros homens. Não basta que apenas as mulheres se manifestem. É preciso que esse enfrentamento se transforme em um grito coletivo, envolvendo toda a sociedade, para que esse cenário nefasto seja efetivamente combatido.

Não se trata de apontar nomes. Trata-se de provocar consciências. Quando iremos nos manifestar? Quando iremos compreender que lutar contra a violência doméstica não é pauta ideológica nem identitária, mas uma questão civilizatória?

O caso é grave.
O caso é público.
O caso é nacional.

E, ainda assim, o silêncio persiste.

Por quê?
Por que tanto silêncio?

Solidariedade

Como homem e jornalista, registro minha solidariedade à vítima, Raphaella Brilhante, e a todas as mulheres que sofrem violência doméstica diariamente e que, muitas vezes, não conseguem espaço na mídia para escancarar a violência praticada dentro de casa. Essa realidade precisa mudar. E ela só mudará quando o silêncio der lugar à responsabilidade, à coragem e à ação.

*Por Ângelo Medeiros
@angelomedeiros

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